Mensagem Maria Modesto Cravo

Meus irmãos, companheiros de Espiritismo, Deus abençoe nossos corações e nossas tarefas.

O movimento espírita é a representação do esforço do Plano Maior para a unificação do nosso povo ante os ideais inspirados pelo Alto. No entanto, percebemos que, nesse esforço de unificar o pensamento em torno de Allan Kardec, muitos irmãos nossos traduzem união por fusão de idéias.
É preciso compreender que Allan Kardec não deixou regras para se fazerem Espiritismo, reuniões mediúnicas ou se realizarem passes. O mestre Hippolyte Léon, dentro de suas observações lúcidas, estabeleceu as bases, os pilares irremovíveis: Deus, imortalidade da alma, reencarnação, mediunidade.
Na prática, houve orientações, com um respeito pela diversidade de cada povo, pela forma de cada centro, sem que as pessoas tenham de se fundir diante de uma cartilha.

O Espiritismo é liberdade, responsabilidade e trabalho incessante, com a compreensão das diferenças.

A união deve ser a base da unificação, sem nenhuma pretensão de superioridade para com aqueles que escolhem um caminho diferente dos nossos. Espiritismo é inclusão, sem nenhuma atitude excludente por parte dos que se julgam no caminho unificado.

É preciso, antes de tudo, cativar as pessoas, tornar-nos e torná-las amigos, a fim de, mais tarde, ganharmos um irmão ou um parceiro nos ideais.
Não há movimentos oficiais ou movimentos paralelos. O que existe é o grande movimento de fraternidade do qual todos fazem parte, conservando cada um a sua liberdade de interpretação e atitudes e a pluralidade que tem como base a fidelidade ao pensamento de Allan Kardec.

Em momento algum Kardec estabeleceu o conceito de pureza doutrinária. Ele falou e escreveu a respeito da fidelidade doutrinária.
O estabelecimento de uma pretensa “pureza” já determina a exclusão daqueles que pensam e interpretam a verdade de forma diferente. A exclusão já está implícita nesse conceito, já que são os homens que determinam o que é “puro” ou não.

É preciso compreender: nós, os seguidores do pensamento espírita, devemos primar pela união do pensamento em torno da doutrina, e não em torno da interpretação doutrinária. União não é fusão.
Podemos ser e estar unidos sem que estabeleçamos regras de conduta para o outro seguir. Também não precisamos excluir aqueles que não pensam como nós. O projeto do Alto é conseguir a unificação, e não a padronização.

Unir sem perder as características.
Unir conservando o direito de pensar diferente.
Unir sem perder a individualidade.
Unir, respeitando a pluralidade.
Unir sem nos transformarmos em máquinas humanas.

A união pressupõe respeito ao outro, sem que ele, o indivíduo ou o centro, seja marginalizado.

O pensamento de oficializar o conceito de “pureza” é o mesmo que no passado gerou o regime de Hitler, as fogueiras da Inquisição ou as diversas perseguições ao longo da história. Essa forma de pensar foi a responsável pelo estabelecimento do Index Proibitorium — ou a relação de livros “proibidos” pela Igreja porque o seu conteúdo não respeitava as “normas” preestabelecidas por aqueles que se consideravam puros.

O trabalho de unificar é algo que transcende a forma; a interpretação é aprofundada até as entranhas da alma do centro espírita e do indivíduo.
Unificar é algo mais interior do que interpretativo, sem as proibições e sem os preconceitos tão característicos dos movimentos humanos.

É preciso urgentemente compreender a forma de o Codificador pensar, a fim de que não extrapolemos em nossas observações e exigências. Observamos que Allan Kardec muitas vezes discordava de seus opositores no campo das idéias, respeitando e amando profundamente a pessoa.

Por outro lado, vemos com lamento que em nosso movimento, quando alguém expõe algum pensamento diferente, inovador ou que vá de encontro com o que dizemos ser a verdade, a pessoa é excluída e o combate se faz, não às idéias, mas ao indivíduo, que passa a sofrer a perseguição como se ele fosse um inimigo público da pretensa “pureza doutrinária”, simplesmente porque resolveu pensar por si próprio, de forma diferente.

Precisamos rever urgentemente a nossa forma de agir e de comportar em relação àqueles que não comungam com os mesmos ideais.

Aprendamos com Jesus, com Allan Kardec, a respeitar as diferenças, a pluralidade de pensamento e o direito de se pensar e agir por si mesmo, fora das regras estabelecidas pela ignorância e prepotência humana.

Maria Modesto Cravo,
Psicografia de Robson Pinheiro